(Quinta-feira, 10 de junho de 2010, 14:00) A energia do escritório acaba. Na sala, um único cômodo aberto, todos os 20 consultores do Instituto Inovação presentes olham para cima ao mesmo tempo e quase que por reflexo testam sem sucesso se a internet ainda estava funcionando. Um primeiro se levanta e testa os interruptores, outros olham pela janela tentando ver se outros prédios parecem ter o mesmo problema. Um transformador estourado ou um caminhão colidindo com um poste haviam deixado o bairro sem energia.

Dentro do escritório, cada um lida de uma maneira diferente, uns conversam sobre os projetos, outros tentam encontrar atividades offline e alguns rodam meio perdidos, meio enrolando, esperando a energia voltar.

Depois de 60 minutos, quase todos estão mais no modo perdido do que conseguindo ser produtivos. Por isso, um a um, resolvem ir para casa e continuar o trabalho que não tinham condições de fazer no escritório.

Essa história aconteceu comigo, quando era um estagiário.  Naquele momento percebi que, já que o meu trabalho era na frente do computador, eu não estava condicionado a um escritório.

Ao longo desses 10 anos como consultor, eu já fiz projetos com pessoas do Brasil inteiro, já trabalhei no mesmo projeto com equipe de outros estados, já fiz reunião em aeroporto, já tive o quarto de hotel como escritório mais vezes do que gostaria. No início com Skype e pen drive da internet 3G, hoje com Zoom, Google Meet, etc e celular roteando internet para o computador (contei um pouco dessas experiências, inclusive, nesse texto aqui).

Já vivi a experiência de escritório fixo e já vivi períodos sem escritório; já convivi anos em coworking e já passei muito pela experiência de home office. Por isso me considero no direito de dar alguns pitacos sobre a situação que estamos vivendo.

De uma semana para outra, milhares de empresas adoraram o home office como uma alternativa para continuarem funcionando. Gigantes do Vale do Silício como Google e Facebook já anunciaram que 90% dos funcionários só voltam para o escritório em 2021. E já foram acompanhados por empresas brasileiras como a Nubank.

Olhando para esse cenário, fica óbvio que o home office é a melhor alternativa, afinal de contas não era isso que os funcionários, principalmente os mais jovens vinham pedindo?

Não é bem isso que alguns estudos recentes tem mostrado. A verdade é que estamos evoluindo tecnológica e psicologicamente para o home office como uma opção, não como o único formato. Poder trabalhar de casa nos dias que você precisa se concentrar em uma planilha, ou na véspera de um feriado quando o trânsito vai estar pior é ótimo, mas não ter um convívio com colegas de trabalho, almoços juntos, happy hours, também não é a melhor opção social.

Empresas 100% online com profissionais do mundo inteiro trabalhando de home office já existem e vão aumentar, mas para isso, elas precisam se preocupar com como resolver o problema de como seus colaboradores se conectam socialmente. Você ajuda o outro departamento a resolver um problema porque gosta da Cláudia do financeiro, com que você sempre encontra no cafezinho. Mesmo que também à distância, algumas vezes é necessário criar conexões entre as pessoas.

Chegamos aí no paradoxo do home office: Quanto mais liberdade as empresas dão para os seus colaboradores trabalharem de casa, mais eles entendem a importância de de vez em quando se conectarem presencialmente.

A partir de 2020 muitas empresas se abrirão para essa prática (até porque estão vendo os benefícios econômicos dessa decisão). Mas são poucas que abolirão de vez os escritórios. Provavelmente eles caminham para serem grandes espaços de convivência e os melhores colaboradores serão exatamente aqueles que conseguirem aproveitar o melhor dos dois mundos (o online e o offline).

E você? Como está construindo a sua empresa para esse novo mundo?