O brasileiro está acostumado a viver a famosa síndrome de vira-lata. Sempre nos achamos piores, mais atrasados e idolatramos tudo o que vem dos Estados Unidos e da Europa.

Sim, existe uma grande diferença econômica entre o Brasil e esses dois locais e no mundo do empreendedorismo não é diferente. Mas será que tudo no Brasil é tão atrasado assim?

Em 2013, tive a oportunidade de visitar o Vale do Silício para aprender como eles lidavam com empreendedorismo por lá. Nada melhor do que aprender com o maior polo do mundo, não é?  Em uma das minhas visitas, passei pela Plug and Play uma das mais famosas aceleradoras dos EUA – o Dropbox, por exemplo, passou por lá.

Na época, toda sexta-feira acontecia uma banca. Os empreendedores tinham a oportunidade de apresentar seus pitchs para diretores de grandes empresas, investidores e mentores em geral.

Com minhas expectativas lá em cima, participei como ouvinte escutando os pitchs e para minha frustração, vi lá, no berço do empreendedorismo, os mesmos empreendedores que eu estava acostumado a lidar aqui no Brasil. Sejam os empreendedores super vendedores, mas desenvolvendo produtos fracos e fáceis de se copiar, até empreendedores com tecnologias revolucionárias, mas que não tem a menor ideia de como vender ou mesmo quem seriam os clientes. Qual a diferença então? 

Na mesa estavam diretores do Google, investidores anjo dispostos a assinar cheques no final do dia e fundos preparados para injetar ainda mais dinheiro quando o negócio começasse a decolar.

O que eu aprendi lá em 2013 foi que os empreendedores de lá não são melhores dos que os nossos, simplesmente eles possuem um ecossistema mais desenvolvido para suportar o crescimento dos negócios e a densidade se encarrega de propiciar negócios bem sucedidos.

Síndrome de vira-lata e unicórnios

Uma segunda reflexão e confronto da tal síndrome de vira-lata com a realidade veio para mim no início deste ano. Um estudo da Mackinsey , que comentamos mais detalhadamente nesse post, listou no início de 2019 quantos unicórnios (empresas avaliadas em mais de US$1 bilhão) o Brasil possuía comparando com alguns países.

Não é surpresa nenhuma que os EUA liderem de longe essa lista e que a China também se destaque, mas me surpreendeu ver o Brasil tão próximo da Alemanha e Índia e à frente de Israel, que sempre é considerado uma referência para nós no mundo da inovação.

 

O fato é que não estamos tão distantes assim e, apesar de todos os problemas da nossa economia e da recente crise, temos nos posicionado bem em relação ao mundo de startups. E isso com todos os entraves que a nossa legislação parece insistir em impor aos empreendedores.

Esse mês tive um terceiro choque de realidade. Em uma viagem a Los Angeles, tive a oportunidade de ver a febre de patinetes elétricos e bicicletas por lá também. E os mesmos problemas que temos em relação a falta de leis ou descumprimento delas para tráfego com os patinetes pelas calçadas, além de depredação dos veículos pela comunidade local. Mais de uma vez vi vários patinetes caídos em um formato que claramente mostrava que algum pedestre insatisfeito havia derrubado, e inclusive cheguei a presenciar um senhor arrancando partes dos patinetes para danificá-los.

Isso tudo me mostrou que o velho discurso “Isso só funciona em país de primeiro mundo” tem caído por terra. Modelos compartilhados ou mesmo baseados em confiança, funcionam no Brasil tão bem como em qualquer “país desenvolvido”.

No final do dia, nós acabamos criando as nossas desculpas para não pensar global e não desenhar negócios para competir a nível mundial com qualquer empresa de qualquer origem. E quem sabe essa revolução que as startups estão criando no mercado não seja uma saída para vencermos de vez os nosso complexo de vira-lata?!

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